A herança

Ora, numa das minhas já rotineiras idas ao hospital, travei-me de conversas com o "ti Jaquim", amigo de longa data, o qual, tal como eu, é acompanhado desde algum tempo nos serviços de saúde.
Conversa para aqui, conversa p'rá acolá, mostrou-me ele indignação pela forma como correm algumas situações neste país, que tanto se espera e desespera para se ser consultado em algumas áreas mais específicas.
Vi na cara dele tanta preocupação, que tive de perguntar:
- Amigo "Jaquim", você parece-me muito desanimado, que tem você que eu não sei?
- Ora não me diga nada, não é que eu estive quase quatro anos à espera de uma consulta e quando chegou o dia, informaram do seu adiamento, assim cá estou para ver se é hoje, passado mais um ano da data inicialmente prevista - disse-me ele.
Perante tal resposta procurei saber mais:
- Olhe Amigo, não me admiro, já estou por tudo - respondi eu.
Fez-se uma pausa na conversa, para se ouvir mais um número de senha chamado, mas não... Não era nenhum dos dois.
E continuei a conversa:
- Pois... Quando neste país, mandam chamar pessoas já falecidas para fazer exames! - respondi-lhe ao mesmo tempo, que soltava uma breve gargalhada.
O "ti Jaquim", olhou para mim, sorriu e disse:
- Não é novidade nenhuma - e continuou - No ano passado chamaram um meu vizinho à junta médica que já não morava entre nós, veja lá bem, a cara da pobre viúva ao receber tal aviso.
Por ali ficamos, pondo "a palheta" em dia, até que nos despedimos, indo cada um para seu lado.
Há dias, voltei a encontrá-lo e perdi-me à conversa com ele. Não o notei nada bem e a cada palavra, sentia nele uma mágoa, como quem tem a noção estar cada vez mais perto do fim.
Falamos de mil e uma coisas, pois tínhamos partilhado ao longo de muitos anos uma amizade sadia. Via nele uma preocupação acrescida, e ao mesmo tempo um balanço do que tinha feito, do que gostaria de ter feito, mas acima de tudo uma preocupação pela vida dos seus, quando viesse a partir.
Nunca eu tinha sido confrontado com uma situação idêntica, em que um amigo me falasse da morte na primeira pessoa, e eu, quando deveria ter uma atitude de ajuda, uma mão amiga, um sorriso, vi-me incapaz de balbuciar qualquer palavra, tal o sentimento momentâneo que as suas palavras deixaram em mim.
- Sabe - disse ele - Fiz o que pude, a eles procurei dar tudo, mas sinto que lhe deixo pouco.
Marcaram-me profundamente aquelas palavras, muito embora notasse uma vontade tremenda da parte dele em não me deixar preocupado. Senti que, esperava de mim, simplesmente a companhia, o escutar, o estar ali, o falar com ele.
Sabia eu por amigos que o seu estado começava a estar algo débil. A idade avançava e os que lhe eram próximos, tínham a noção que a qualquer dia aconteceria o inevitável. Não podia eu deixar transparecer que sabia e que também eu o sentia, e que tanto me custava.
Reparei notar ele a minha preocupação, e num momento, o seu desejo de inverter a situação, já por si taciturna, levou "ti Jaquim" a encostar-se ao meu ouvido dizendo:
- Ó meu Amigo, anime-se caraças, não esteja triste, tenho uma coisa para dizer que o vai animar de certeza absoluta.
Olhei para ele, vi-o mudar de feições, todo bem disposto e perguntei:
- Então, que tem para me dizer que me vai animar assim tanto?
E ele respondeu-me numa espontânea boa disposição:
- Já sei o que vou deixar aos meus filhos como herança, e que pode ser uma boa ajuda, talvez a mais importante dádiva para o futuro que agora me lembro.
Eu, sem esperar um segundo perguntei:
- Então! Conte lá, que já começo a ficar impaciente.
- Olhe - disse ele - Vou deixar como herança, a cada um dos filhos, uma consulta marcada em cada especialidade - e concluiu dizendo:
- Pudera, com o atraso que há na marcação e realização das consultas, daqui a uns anos vão estar precavidos, e a consulta garantida vai ser uma mais valia, melhor que qualquer outra herança.
Soltamos ambos uma valente gargalhada, a última de tantas dadas.
(Texto próprio escrito à margem do novo acordo ortográfico e inserido no jornal Pataias à Letra em março 2018)