Alto e pára o baile ...

"alto e pára o baile"
Não cheguei à origem, e nas pesquisas que fiz, não consegui uma mais verdadeira que outra. Há quem diga que a expressão "alto e pára o baile" teve origem num bailarico algarvio, também há quem o ligue às terras lousanenses, já outros associam à região de Torres Vedras... mas há mais lugares a reclamar tal dito, que se tornou tão popular.
Sou do tempo em que, num respeito mútuo/familiar ainda ponderavam algumas "regras" no que consistia à aproximação às raparigas, havendo em alguns lugares e conforme os extractos sociais, comportamentos vigiados sobre os candidatos a namoricos. Afinal, era uma época em que dançar agarradinhos, dava o mote, a uma aproximação, sobre o olhar atento, sobretudo das mães, renitentes à habituação de mudanças de ser e estar.
Numa inocência que se pretendia, de forma estratégica se abordava o par, não indo além do rodear o ombro com o braço direito, e mão na mão, lá dávamos uns pés de dança, com uma bateria de olhares sobre nós, que mais pareciam holofotes. Se tudo corria bem, suspirávamos de alívio, como se nos tivesse saído um bom prémio... e que prémio!
Locais havia, onde a malta se juntava, com maior incidência nos bailes das colectividades, onde muitos casais faziam finca-pé em estar presentes, com o fim quase único de "controlar" as filhas, e de modo particular aqueles que delas se abeiravam, como prováveis "candidatos", havendo muita vez, a reprovação antecipada, através de um franzir de sobrancelhas.
Vem todo este estado de conversa, a propósito do dito "alto e pára o baile", sobre o qual se contam histórias, a rondar o anedótico, provocado por uma sensação de controle desenfreado, fundamentado ou não, em que um dos pais, ao se aperceber de algo menos correcto, afirmou puxando dos seus galões:
"Alto e pára o baile. Apalparam o c. à minha filha".
Ao que o visado rapaz terá reagido de imediato:
"Fui eu, mas quero casar com ela".
Gritando, o pai da rapariga, já com os seus interesses assegurados, diz:
"Siga então o baile..."
Não fui um grande frequentador destes bailaricos, mas tive a minha dose, ainda mais que a poucos metros de casa, havia o salão da Cibra, "Ex-Libris" das festas dançantes, com forte impacto nas passagens de ano e carnavais, ao qual se deslocavam muitos jovens, alguns de comboio em carruagens quase lotadas, de lugares tão distantes como Lisboa, para participarem nestes bailes tão repletos de luz e cor, onde um adolescente como eu, se sujeitava a apanhar "uma nega" ou "tampa" como lhe chamávamos.
Hoje, os tempos são outros, passámos dos oito aos oitenta, com as alterações e condições do modo de viver em sociedade, tão repentinamente alteradas, os bailes de antigamente, foram dando lugar às discotecas e aos bares, "abafando" as características colectividades de outrora.
(texto de autor escrito à margem do novo AO, publicado no Pataias à letra em 2019)