Gruta da Alva... quem conheceu?

Estando eu sentado a apanhar um solinho, junto à sacada da entrada da minha casa, num daqueles momentos em que a sós, deambulamos na estória desses momentos e dou comigo, desfolhando no pensamento, antigos calendários a fio e pavio, os quais me transportam aos meus seis, sete anos, quando acompanhava, alguns dos adolescentes de então e com eles corria Seca e Meca.
Devem lembrar-se os "jovens" da minha juventude, particularmente aqueles que com mais uns anitos que eu, me proporcionavam então as mais "malucas" aventuras, em brincadeiras tão sadias e que faziam a delícia de qualquer criança, fazendo-nos as criaturas mais felizes no momento.
Numa dessas "paragens no tempo", passei em revista umas idas às Alvas, ali onde se preparava o início da que seria a maior extracção de pedra necessária à laboração da fábrica Cibra.
Numa zona ainda virgem, existia um reentrância, conhecido por muitos como o "buraco da Alva", onde amiúde íamos, quais exploradores de um desconhecido, entrando por ali como se fossemos os maiores do mundo. Nesse dito "buraco", os mais velhos não conseguiam passar, já que o mesmo, logo após a entrada se afunilava, onde só um corpo esguio e franzino podia ir mais além.
Fiz, também eu, parte desse percurso de descoberta e habilidade genuína, na companhia de alguns amigos mais velhos, alguns já falecidos, o que havendo a presença de um meu irmão mais velho, me tornava numa espécie de preferido para algumas habilitações mais adequadas à minha pequenez.
Mas aliado à ida a essa gruta, não me posso esquecer, dos ralhetes e dos tabefes, que algumas vez me aconchegaram a roupa ao pelo, tributadas pelo lastimável estado em que chegava a casa, sujo, molhado e algumas vezes com os buracos das calças aumentados.
Recordo-me ser esse, um espaço rico em fosseis, aos quais não dávamos grande importância, mas que nos deixavam maravilhados, podia alguns metros à frente nesse estreito e condicionado acesso, ouvir-se como que a água a correr. Sinceramente nunca o confirmei. Sei e recordo que me diziam que sim, que era verdade, e que por ali continuaria uma gruta, na qual passaria um rio subterrâneo. O que posso dizer, é que para lá entrar, ia deitado e de cabeça, e só saía puxado pelos pés... mais tarde, bem mais tarde, lembro-me de existir uma colecção considerável de fósseis encontrados nessa pedreira, os quais estavam expostos numa sala na fábrica Cibra, empresa à qual estive ligado cerca de 44 anos.
Da dimensão da gruta, não sei se seria muito grande ou não, (presumo que tivesse uma área considerável, já que o eco se fazia ouvir na repetição dos nossos "gritos"). Tal como eu, muitos ainda se lembrarão disso, ou porque também por lá passaram, ou simplesmente porque dela ouviram falar.
A necessidade de uma maior exploração fabril levou a que a mesma zona, com o avançar dos patamares, fosse destruída à força das explosões a dinamite que era usada na época.
Não falharei muito se localizar no tempo estas incursões à gruta da Alva ao início dos anos 60 do século passado, já que aconteceram, um ano antes de entrar na primária e assim continuaram por uns mais dois anos.
Todas estas peripécias nos levavam a passar tão bons momentos que a rapaziada de hoje, nem sonha o quão importante eram para o nosso desenvolvimento, que sem muito, tínhamos quase tudo ao nível de pura e gratificante brincadeira.
Não quero ser saudosista, no modo em que sinta falta desses momentos, mas sei bem o que com eles aprendi e vivi; o que cada um desses amigos me deu, e a importância que essa vivência me transmitiu mais tarde.
Não se refilava muito por termos as calças rotas e os pés quase assentes no chão, à falta das meias solas dos sapatos (isto, quando havia calçado, já para não falar naqueles que não o tinham).
A felicidade, essa era feita a troco de uns botões arrancados à força da roupa, ou de uns feijões trazidos à socapa de casa para o jogo da malha tão característico na época.
São estas pequenas coisas que, ainda hoje, nos trazem tão bons momentos à memória.
( A imagem é de arquivo da Net, e de outro local, meramente ilustrativa)
(Texto próprio escrito à margem do novo acordo ortográfico)