Recordações, quem as não tem

23-01-2021

Numa vaga de apresentações de "westerns" que marcaram uma época, dei comigo de novo a ver o filme, "O Bom, o Mau e o Vilão". Sentado no sofá recordei a excelente sala de cinema que tivemos, onde era habitual haver múltiplas sessões, tal era a afluência de público que ali se deslocava e que nos trazem à memória os filmes vistos na sala da Fundação Joaquim Matias, em Pataias-Gare

Ora, desde catraio que me lembro de ver por lá os melhores filmes. No início, ainda mal acompanhava as legendas. A verdade, é que na minha pouca idade, não me era difícil assistir à maioria deles. O facto de meu pai colaborar nas sessões abriu caminho a assistir em modo fugitivo, escondido atrás das cortinas que separavam o balcão da varanda.

Na altura era rígido o acesso condicionado à idade, já que era frequente haver fiscalização, mais verificada pela aparência física e estatura, do que pela verdadeira idade.

Como qualquer miúdo, também eu era aventureiro, e ali à espreita, mal soava a campainha (o que acontecia uns quinze minutos antes), percebia como os outros faziam para escapar ao controle, já que estas coisas se aprendiam com os mais velhos, ora bem!.

Quando não conseguia escapar-me pela porta, havia sempre um plano B, (já nessa altura havia plano B ).

A mais usual era pelas paredes exteriores do café anexo existente, cujo alçado era composto por múltiplos vidros encaixados numas travessas de betão salientes, que davam um jeitão para subir à placa que dava acesso à varanda, e daí para o pequeno hall das casas de banho, onde enroscados nos cortinados víamos os filmes, e melhor ainda era, quando alguém se lembrava de por lá deixar uma das velhas cadeiras de madeira... Aquilo era quase modo Vip e à borla.

Uma vez ou outra, assistia na cabine, convidado pelo maquinista. Dos que conheci, lembro um com quem mantive uma boa amizade largos anos, que era o Sr António Santos, que foi da Martingança, e com quem viria mais tarde a trabalhar, ali ao lado na fábrica de cimentos, onde aos treze anos me iniciei profissionalmente.

Nessa época era normal, fazer-se mais que uma sessão, já que a primeira esgotava facilmente. Aos domingos chegava a haver três e até quatro sessões, que se iniciavam na matiné. Cá fora, formava-se uma fila imensa no acesso à bilheteira. A Ti Jaquina, não tinha mãos a medir na venda das pevides (nessa altura por cá, não havia pipocas), a roleta do Lirai também fazia negócio, e o café que até tinha uma porta de acesso directo à sala do cinema, raramente tinha um espacinho livre aos intervalos.

Já agora, o filme "O Bom, o Mau e o Vilão", de 1966, do realizador Sérgio Leone, foi rodado aqui ao lado em Espanha, e relata uma história itinerante de três homens em busca de uma quimera, (caixa com 200 mil dólares) que havia sido roubada no meio da América dilacerada pela Guerra Civil, e em cujo enredo se destacam Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef.

(texto do autor inserido em "palavras ao desvario" - 2020 Pataias à letra)

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