Retrógrado ou talvez não...

Aqui estou, alternando entre a leitura dos livros antigos de escola, que me foram oferecidos e o observar da chuva que bate na vidraça da sacada da sala.
Há um tempo que os meus filhos me deram de presente (edição novinha em folha), os livros das classes da escola dos meus tempos de miudo. O folhear desses mesmos livros, fáz-me recuar aos anos 60 do séc passado, e como por magia, situar-me nos momentos que vivi.
O material escolar transitava dos mais velhos para os mais novos. A sacola que albergava o material escolar era diferenciada pela classe económica das nossas famílias. Algumas poucas em couro, (que as havia), mas mais recordo as que eram feitas de um forte tecido grosso, azulão, conhecido por zuarte, tão resistente às nossas brincadeiras e ao exigente uso que lhe dávamos.
Um livro respeitante à classe frequentada, um lápis preto, uma ardósia e seu pau de pedra, um caderno de linhas e um de contas baratuxo, raramente um de desenho também, uma tabuada, um conjunto de seis lápis de cor, e em alguns casos a borracha e afiadeira. A velha caneta de aparo de molhar no tinteiro, existente nas carteiras fazia parte do lote, assim como a famosa caneta de tinta permanente com reservatório, obrigatória nas provas de final de período e passagem de classe.
Como vestimenta, a bata branca que ainda usei. Na sala, obrigatoriamente os quadros com as figuras estaduais, assim como a colocação do crucifixo em lugar de destaque.
Na escola do "apeadeiro", à minha frente, (no meu caso) a professora: rígida, mas sabedora, mestre, mas amiga... Não condeno o uso que a mesma deu à régua, esta feita pelo pai de um dos alunos, que era carpinteiro. Recordo também de ver algures a "espreitar", a "menina dos cinco olhos", palmatória assim chamada por ter cinco furos, mas confesso que nunca a vi em acção.
A excitação e a ansiedade de cada início de ano dava uma adrenalina muito diferente dos dias de hoje.
O muito era resumido ao pouco que tinhamos, não sendo necessários tantos livros e apetrechos como os que usam agora, em que existem vários livros autorizados e de utilização obrigatória, que tornam bem pesada a mochila dos alunos.
Como me lembro de alguns cadernos cujo preço rondava os "25 tostões", terem na contracapa, histórias como as do "João Ratão" e outras tais.
Sabía-se na ponta da língua, as capitais de distrito, os nomes dos principais rios que eram muitos, assim como as linhas de caminho de ferro algumas já desaparecidas; também era obrigatório saber os nomes e cognomes dos Reis de Portugal, ascendentes e descendentes, conquistas e castelos, datas e feitos, nas diferentes dinastias.
"Vejo" à minha frente a toma forçada do óleo de fígado de bacalhau, ou a fila indiana com destino ao refeitório da Cibra, onde tínhamos uma "malga" de sopa garantida.
A chuva era transformada em momentos de diversão, tanta vez descalços, em brincadeiras sadias, onde não se augurava as tecnologias de hoje. Tudo se transformava em algo que servisse que alimentasse a brincadeira.
Colocavam-se alcunhas, podia haver briga, mas não "existia" a palavra "bullying", pois passado pouco tempo tudo ficava bem. Nas brincadeiras todos eram amigos.
Quantas vezes ferimos os cotovelos e joelhos... Partir a cabeça numa brincadeira era quase "da praxe" ao longo do ano escolar.
Tomei banho em balde, e em tanque de lavar a roupa. Ouvi ralhetes tanta vez, e em algumas senti o "bater" de um chinelo, mas fui tão feliz...
Lembro-me, não levado pela melancolia que as palavras contêm, mas pela saudade que me invade numa nostalgia de bons momentos passados.
Não alimento a ideia de ser "retrogrado" com estas palavras, só porque recordo com satisfação, quando raramente nos davam um presente, e o agradecíamos mesmo que não fosse do nosso agrado, pois era o que nos podiam dar, com um carinho que se tornava recíproco.
"E vocês, como vão de memórias?"
(texto escrito à margem do novo acordo ortográfico, publicado no Pataias à Letra em Abril 2018)