Ser Cuidador... nós e os outros...

Muito em voga, o termo Cuidador, palavra muito sonante nos últimos tempos, tem chegado até nós das mais variadas formas, quer em conversas do dia a dia, quer e sobretudo pelos meios de comunicação. Certo, porém, é que através dos tempos, mesmo que não usual, o termo e a função fazem parte de todos nós, e na maioria dos casos, dentro da própria vivência familiar.
Não sendo um Cuidador "activo", convivo e partilho de modo regular algumas experiências, com outros que o são a cada dia, a cada momento. Numa das partilhas públicas em que participamos enquanto voluntários, da assistência alguém perguntava, que definição adequada se poderia atribuir ao Cuidador, tendo em conta que todos temos ao longo das nossas vidas, uma parte de nós que se dedica a cuidar de outrem. No nosso entendimento, generalizado, todos temos uma definição própria, uns porque o leram, ou ouviram em qualquer lugar, outros, e são já muitos, que conhecem o termo, porque dão de si em prole de alguém, geralmente não remunerados, num trabalho altruísta, generoso, de muito carinho e sobretudo amor ao próximo.
Cuidador é isso mesmo, ser responsável por alguém, que por perda de autonomia, não consegue realizar parte ou mesmo todas as actividades diárias, agravadas pelos mais diversos estados de saúde precários. Mas, ser Cuidador, é muito mais que isso, é ter disponibilidade e capacidade para estar presente, ser bastante comunicativo e sobretudo afectivo, de forma digna para com aquele que é Cuidado.
Perante estas condições, verificamos que qualquer um de nós, tem capacidades para seu um Cuidador, desde que muito particularmente interaja da melhor forma, o que, associado ao conhecimento de cuidados de higiene, de saúde e de bem estar, trará à pessoa de quem cuida, uma melhoria substancial na forma de estar, enquanto pessoa dependente. Deve sobretudo estar a par das necessidades primárias e tanto quanto possível, comunicar regularmente com os profissionais da saúde, em busca de fazer o melhor que pode e sabe.
A grande parte dos cuidados para com a pessoa dependente, sejam de que origem e grau de dependência for, chegam através dos Cuidadores informais. Ainda não há muito tempo, se sabia que mais de 80% desses cuidados eram disponibilizados por estes, numa grande incidência desenvolvido por mulheres e em que o trabalho desenvolvido, não era até aqui reconhecido, e muito menos, remunerado, situação que acarreta muitas vezes, para quem se voluntaria deste modo, perdas no aspecto físico e psicológico, tanta vez trazidos pelo cansaço, assim como um isolamento em relação à vida quotidiana, e tanta vez o abandono do emprego, para se dedicar de corpo e alma a outra pessoa, em particular recaindo em si, a responsabilidade nos cuidados sobre alguém quase sempre da própria família, quando sabemos existir, uma falta de responsabilidade do próprio Estado para com a comunidade que, infelizmente, deixa alguém na condição de dependente, sem o apoio merecido e que se requer.
Fala-se muito agora no reconhecimento do Cuidador... Vamos ver... Vamos ver, até que ponto se cumpre esse reconhecimento, tendo em conta a necessidade de formação e capacitação, apoio na própria saúde e meios de garantir um descanso merecido, face ao desempenho desgastante do próprio Cuidador, já para não falar na falta de atribuição de possíveis apoios sociais ou remuneratórios. Em suma, que se cumpra o direito a um Estatuto que salvaguarde o Cuidador em e nas diversas formas, pelo trabalho que este desenvolve, e em que renega tanta vez o estar em família, para prestar auxílio a quem necessita de si, de nós.
(texto de opinião de AF, escrito á margem do novo AO)